Todo mundo se conforma
com as migalhas
mas se for para ter o mínimo
eu prefiro o nada
ninguém nos avisa
quando a água está fria
quando a piscina não dá mais pé
quando se pode,
num piscar de olhos
perder a fé
quem sabe um dia a gente acerta
porque não dá mais
para deixar a porta aberta
achar que não amar não faz mal
e num instante
virar estátua de sal
eu tentei
você tentou
todos tentaram
e a tentativa
chega no mesmo ponto!
qual é o drama?
o medo, as caras e bocas
os velhos jogos e segredos?
todo mundo se conforma com pouco
com um sinal de fumaça
uma piada sem graça
uma vida que do nada se desfaça
eu sei que passa
você sabe que passa
nós sabemos que passa
mas enquanto não passa
o que quer que se faça
parece desgraça
Listen to "O NADA" on Spreaker.
Blog literário com podcasts produzido pela jornalista, escritora, poeta e podcaster Ronise Vilela
quarta-feira, 22 de agosto de 2018
quarta-feira, 15 de agosto de 2018
FANTASMAS
Não, não grites comigo!
Pareces um zumbido de hipertensos
Um insuportável grilo-falante
a me julgar
segundo a tua régua
De onde tirastes tantas leis
de onde vês curvas nas retas?
De onde extrais esses chicotes mentais
de onde vem tanta crueldade?
Eu já fui um louco solto pela cidade
amante de personalidade de segundo escalão
pretensa artista de plateias vazias
mãe, pai, filho e espirito não tão santo
O certo e errado são conceitos
baseados em preceitos
nem sempre compatíveis com o modo de vida universal
Reduza o volume da tua voz!
Não grites comigo!
Abaixe o dedo em riste, o olhar altivo e o sorriso sarcástico
Chega de arrogância, de jogos e provocações
E de quem eu falo?
Não sei, não sei,
mas, não grites comigo!
Listen to "FANTASMAS" on Spreaker.
Pareces um zumbido de hipertensos
Um insuportável grilo-falante
a me julgar
segundo a tua régua
De onde tirastes tantas leis
de onde vês curvas nas retas?
De onde extrais esses chicotes mentais
de onde vem tanta crueldade?
Eu já fui um louco solto pela cidade
amante de personalidade de segundo escalão
pretensa artista de plateias vazias
mãe, pai, filho e espirito não tão santo
O certo e errado são conceitos
baseados em preceitos
nem sempre compatíveis com o modo de vida universal
Reduza o volume da tua voz!
Não grites comigo!
Abaixe o dedo em riste, o olhar altivo e o sorriso sarcástico
Chega de arrogância, de jogos e provocações
E de quem eu falo?
Não sei, não sei,
mas, não grites comigo!
Listen to "FANTASMAS" on Spreaker.
terça-feira, 7 de agosto de 2018
UTOPIA Drugstore
Post original do Ronise Vilela de 28 de março de 2012
Sem receita na mão, a moça entra meio encabulada e pede para o farmacêutico:
- Tem remédio para coração partido?
O moço, alto e magro, coloca a mão sobre o queixo e responde:
- Na verdade, se for recente você pode usar um cicatrizante em gel e isolar a área com gaze.
- Mas a dor é profunda. Lamenta a mulher, agora com olhar de menina.
Sabendo que dores do coração geralmente são inflacionadas pelos doentes, o farmacêutico tenta vender uma série de outros produtos, parte de acordo nas entrelinhas com a Soberba´s Factory.
- Bem, quero te mostrar uma coisa, diz o farmacêutico com sorriso de vendedor de ilusões. No setor C temos um kit Amor Eterno. Olhe, é composto de gotas de sedução, sexo via oral e paixão injetável.
- É muito caro? - perguntou a mocinha meio interessada, meio desconfiada.
- Olha minha querida, quem quer se apaixonar paga o preço!
Mais tarde, entram pai e filho adolescente na Utopia Drugstore. Cada qual no seu lado, o farmacêutico, o mesmo, o alto e magro, de cabelos crespos escuros e nariz proeminente, faz uma abordagem conjunta.
- Em que posso serví-los?
O jovem se esquiva olhando para o teto, enquanto o pai pigarreia antes de pedir o medicamento.
- Ran! O senhor tem perdão, desculpas ou genérico disso?
- Hum... o senhor tem que ser específico. Perdão, a dosagem é mais alta, porém o efeito é melhor, embora o tratamento seja demorado. O senhor sabe, perdão passa pelo cérebro, coração, e pode dar reações intestinais, pois, como o senhor deve saber, esse processo de perdoar é uma merda, com o perdão da palavra. No caso de algo mais leve, sem muitas complicações pode se levar um vidrinho de desculpas, são só três gotas ao dia. O problema é que o uso contínuo provoca amnésia, e se é preciso tomar mais gotas de desculpas. Mas, temos ainda o genérico VALEU! Esse é efervescente, mas só dura o tempo em que fica no organismo e o ponto negativo é que vicia. A pessoa faz a burrada, toma o Valeu! e acha que está curada (riu).
O pai pediu perdão e foi alertado:
- Esqueci de explicar ao senhor, que para total eficácia do tratamento, todas as pessoas envolvidas devem fazer uso do medicamento!
-Dá um prá mim também, disse o garoto com ar blasè.
Papai pagou com cartão de débito e os dois nunca usaram o produto.
E se eu entrasse nessa drogaria pediria um pouco de Paz.
-Moça, aqui não vendemos produtos homeopáticos, ouviria do farmacêutico alto, magro, de cabelos crespos e escuros, nariz prominente e mãos irritantemente asseadas.
Listen to "UTOPIA Drugstore" on Spreaker.
Sem receita na mão, a moça entra meio encabulada e pede para o farmacêutico:
- Tem remédio para coração partido?
O moço, alto e magro, coloca a mão sobre o queixo e responde:
- Na verdade, se for recente você pode usar um cicatrizante em gel e isolar a área com gaze.
- Mas a dor é profunda. Lamenta a mulher, agora com olhar de menina.
Sabendo que dores do coração geralmente são inflacionadas pelos doentes, o farmacêutico tenta vender uma série de outros produtos, parte de acordo nas entrelinhas com a Soberba´s Factory.
- Bem, quero te mostrar uma coisa, diz o farmacêutico com sorriso de vendedor de ilusões. No setor C temos um kit Amor Eterno. Olhe, é composto de gotas de sedução, sexo via oral e paixão injetável.
- É muito caro? - perguntou a mocinha meio interessada, meio desconfiada.
- Olha minha querida, quem quer se apaixonar paga o preço!
Mais tarde, entram pai e filho adolescente na Utopia Drugstore. Cada qual no seu lado, o farmacêutico, o mesmo, o alto e magro, de cabelos crespos escuros e nariz proeminente, faz uma abordagem conjunta.
- Em que posso serví-los?
O jovem se esquiva olhando para o teto, enquanto o pai pigarreia antes de pedir o medicamento.
- Ran! O senhor tem perdão, desculpas ou genérico disso?
- Hum... o senhor tem que ser específico. Perdão, a dosagem é mais alta, porém o efeito é melhor, embora o tratamento seja demorado. O senhor sabe, perdão passa pelo cérebro, coração, e pode dar reações intestinais, pois, como o senhor deve saber, esse processo de perdoar é uma merda, com o perdão da palavra. No caso de algo mais leve, sem muitas complicações pode se levar um vidrinho de desculpas, são só três gotas ao dia. O problema é que o uso contínuo provoca amnésia, e se é preciso tomar mais gotas de desculpas. Mas, temos ainda o genérico VALEU! Esse é efervescente, mas só dura o tempo em que fica no organismo e o ponto negativo é que vicia. A pessoa faz a burrada, toma o Valeu! e acha que está curada (riu).
O pai pediu perdão e foi alertado:
- Esqueci de explicar ao senhor, que para total eficácia do tratamento, todas as pessoas envolvidas devem fazer uso do medicamento!
-Dá um prá mim também, disse o garoto com ar blasè.
Papai pagou com cartão de débito e os dois nunca usaram o produto.
E se eu entrasse nessa drogaria pediria um pouco de Paz.
-Moça, aqui não vendemos produtos homeopáticos, ouviria do farmacêutico alto, magro, de cabelos crespos e escuros, nariz prominente e mãos irritantemente asseadas.
Listen to "UTOPIA Drugstore" on Spreaker.
quarta-feira, 1 de agosto de 2018
Conversa com meu novo velho amigo
Podcast sobre uma nova amizade com jeito de há muito tempo.
Nos comentários, link para ouvir no SoundCloud
Listen to "Conversa com meu novo velho amigo" on Spreaker.
Nos comentários, link para ouvir no SoundCloud
Listen to "Conversa com meu novo velho amigo" on Spreaker.
quarta-feira, 20 de junho de 2018
NÓS USAMOS BATOM #EPISÓDIO 4
Naquela manhã ela estava tão confusa quanto o tempo. Arrumava a bolsa, respondia mensagens e da janela se via uma garoa fina e uma ameaça de raios solares. Ela calçou as botas de canos longos, acariciou a cachorra e esqueceu a sombrinha.
Voltou para dar um telefonema e ao se olhar no espelho, viu que tinha esquecido de passar batom. O batom era um item indispensável na sua vida e dizia mentalmente: “amigas, sempre tenham em mãos batom, filtro solar e se puder, lenços umedecidos – a passagem dos anos vai confirmar”.
O batom era tão imprescindível, que monitorava filha e amigas “passou batom?” – era quase um amigo confidente, pois ao mexer seus lábios, o batom acompanhava suas palavras. Gostava da sua boca, mas sabe que já tivera um formato mais atraente antes de ser reconstruída por acidente de percurso.
Escolheu um batom cor de carne. Ficara bem em seus lábios, tinha uma maciez e aderência boas, mas estava levemente quebrado. Olhou-se novamente no espelho, aprovou sua imagem refletida e colocou o batom numa pequena bolsinha de desenhos japoneses, que foi jogada na bolsa maior.
Fez todo o ritual de partida, mas desta vez bem mais apressada. Oi para o porteiro, para vizinha, para outra vizinha, para o senhorzinho que queria puxar conversa e ela falando sobre o tempo já com passos largos. Estava risonha e disse para si mesma “hoje estou aberta a novas possibilidades”.
Iria pegar um ônibus de uma linha que nunca trafegou. Pouco antes de chegar no ponto, encontrou uma mulher que pode ter sua idade, mas os vincos da vida de sem-teto provavelmente apuraram as marcas. Eram conhecidas. Prontamente ela a cumprimentou e recebeu os cumprimentos da moradora de rua, que tinha sua vida guardada em um carrinho de supermercado. Com uma vassoura na mão, repousou a magreza do corpo e se aligeirou em perguntar: “você tem um pedacinho de batom para me dar?”.
Pensou em como daria um pedaço de batom e não se furtou em imediatamente enfiar as mãos na bolsa, na bolsinha e retirar o batom cor de carne. “É seu”. O brilho e contentamento da “amiga de rua” foram a recompensa do dia. “Ah, obrigada, está muito frio e gosto de passar um batonzinho para proteger”, explicou.
Ela riu e sabia que no fundo mesmo, o batom era um código de conduta. Uma postura, uma filosofia de vida. E saiu feliz para seu destino por salvar mais lábios incolores.
Listen to "Nós Usamos Batom #episodio4" on Spreaker.
Voltou para dar um telefonema e ao se olhar no espelho, viu que tinha esquecido de passar batom. O batom era um item indispensável na sua vida e dizia mentalmente: “amigas, sempre tenham em mãos batom, filtro solar e se puder, lenços umedecidos – a passagem dos anos vai confirmar”.
O batom era tão imprescindível, que monitorava filha e amigas “passou batom?” – era quase um amigo confidente, pois ao mexer seus lábios, o batom acompanhava suas palavras. Gostava da sua boca, mas sabe que já tivera um formato mais atraente antes de ser reconstruída por acidente de percurso.
Escolheu um batom cor de carne. Ficara bem em seus lábios, tinha uma maciez e aderência boas, mas estava levemente quebrado. Olhou-se novamente no espelho, aprovou sua imagem refletida e colocou o batom numa pequena bolsinha de desenhos japoneses, que foi jogada na bolsa maior.
Fez todo o ritual de partida, mas desta vez bem mais apressada. Oi para o porteiro, para vizinha, para outra vizinha, para o senhorzinho que queria puxar conversa e ela falando sobre o tempo já com passos largos. Estava risonha e disse para si mesma “hoje estou aberta a novas possibilidades”.
Iria pegar um ônibus de uma linha que nunca trafegou. Pouco antes de chegar no ponto, encontrou uma mulher que pode ter sua idade, mas os vincos da vida de sem-teto provavelmente apuraram as marcas. Eram conhecidas. Prontamente ela a cumprimentou e recebeu os cumprimentos da moradora de rua, que tinha sua vida guardada em um carrinho de supermercado. Com uma vassoura na mão, repousou a magreza do corpo e se aligeirou em perguntar: “você tem um pedacinho de batom para me dar?”.
Pensou em como daria um pedaço de batom e não se furtou em imediatamente enfiar as mãos na bolsa, na bolsinha e retirar o batom cor de carne. “É seu”. O brilho e contentamento da “amiga de rua” foram a recompensa do dia. “Ah, obrigada, está muito frio e gosto de passar um batonzinho para proteger”, explicou.
Ela riu e sabia que no fundo mesmo, o batom era um código de conduta. Uma postura, uma filosofia de vida. E saiu feliz para seu destino por salvar mais lábios incolores.
Listen to "Nós Usamos Batom #episodio4" on Spreaker.
Assinar:
Postagens (Atom)
