Podcast sobre uma nova amizade com jeito de há muito tempo.
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Blog literário com podcasts produzido pela jornalista, escritora, poeta e podcaster Ronise Vilela
quarta-feira, 1 de agosto de 2018
quarta-feira, 20 de junho de 2018
NÓS USAMOS BATOM #EPISÓDIO 4
Naquela manhã ela estava tão confusa quanto o tempo. Arrumava a bolsa, respondia mensagens e da janela se via uma garoa fina e uma ameaça de raios solares. Ela calçou as botas de canos longos, acariciou a cachorra e esqueceu a sombrinha.
Voltou para dar um telefonema e ao se olhar no espelho, viu que tinha esquecido de passar batom. O batom era um item indispensável na sua vida e dizia mentalmente: “amigas, sempre tenham em mãos batom, filtro solar e se puder, lenços umedecidos – a passagem dos anos vai confirmar”.
O batom era tão imprescindível, que monitorava filha e amigas “passou batom?” – era quase um amigo confidente, pois ao mexer seus lábios, o batom acompanhava suas palavras. Gostava da sua boca, mas sabe que já tivera um formato mais atraente antes de ser reconstruída por acidente de percurso.
Escolheu um batom cor de carne. Ficara bem em seus lábios, tinha uma maciez e aderência boas, mas estava levemente quebrado. Olhou-se novamente no espelho, aprovou sua imagem refletida e colocou o batom numa pequena bolsinha de desenhos japoneses, que foi jogada na bolsa maior.
Fez todo o ritual de partida, mas desta vez bem mais apressada. Oi para o porteiro, para vizinha, para outra vizinha, para o senhorzinho que queria puxar conversa e ela falando sobre o tempo já com passos largos. Estava risonha e disse para si mesma “hoje estou aberta a novas possibilidades”.
Iria pegar um ônibus de uma linha que nunca trafegou. Pouco antes de chegar no ponto, encontrou uma mulher que pode ter sua idade, mas os vincos da vida de sem-teto provavelmente apuraram as marcas. Eram conhecidas. Prontamente ela a cumprimentou e recebeu os cumprimentos da moradora de rua, que tinha sua vida guardada em um carrinho de supermercado. Com uma vassoura na mão, repousou a magreza do corpo e se aligeirou em perguntar: “você tem um pedacinho de batom para me dar?”.
Pensou em como daria um pedaço de batom e não se furtou em imediatamente enfiar as mãos na bolsa, na bolsinha e retirar o batom cor de carne. “É seu”. O brilho e contentamento da “amiga de rua” foram a recompensa do dia. “Ah, obrigada, está muito frio e gosto de passar um batonzinho para proteger”, explicou.
Ela riu e sabia que no fundo mesmo, o batom era um código de conduta. Uma postura, uma filosofia de vida. E saiu feliz para seu destino por salvar mais lábios incolores.
Listen to "Nós Usamos Batom #episodio4" on Spreaker.
Voltou para dar um telefonema e ao se olhar no espelho, viu que tinha esquecido de passar batom. O batom era um item indispensável na sua vida e dizia mentalmente: “amigas, sempre tenham em mãos batom, filtro solar e se puder, lenços umedecidos – a passagem dos anos vai confirmar”.
O batom era tão imprescindível, que monitorava filha e amigas “passou batom?” – era quase um amigo confidente, pois ao mexer seus lábios, o batom acompanhava suas palavras. Gostava da sua boca, mas sabe que já tivera um formato mais atraente antes de ser reconstruída por acidente de percurso.
Escolheu um batom cor de carne. Ficara bem em seus lábios, tinha uma maciez e aderência boas, mas estava levemente quebrado. Olhou-se novamente no espelho, aprovou sua imagem refletida e colocou o batom numa pequena bolsinha de desenhos japoneses, que foi jogada na bolsa maior.
Fez todo o ritual de partida, mas desta vez bem mais apressada. Oi para o porteiro, para vizinha, para outra vizinha, para o senhorzinho que queria puxar conversa e ela falando sobre o tempo já com passos largos. Estava risonha e disse para si mesma “hoje estou aberta a novas possibilidades”.
Iria pegar um ônibus de uma linha que nunca trafegou. Pouco antes de chegar no ponto, encontrou uma mulher que pode ter sua idade, mas os vincos da vida de sem-teto provavelmente apuraram as marcas. Eram conhecidas. Prontamente ela a cumprimentou e recebeu os cumprimentos da moradora de rua, que tinha sua vida guardada em um carrinho de supermercado. Com uma vassoura na mão, repousou a magreza do corpo e se aligeirou em perguntar: “você tem um pedacinho de batom para me dar?”.
Pensou em como daria um pedaço de batom e não se furtou em imediatamente enfiar as mãos na bolsa, na bolsinha e retirar o batom cor de carne. “É seu”. O brilho e contentamento da “amiga de rua” foram a recompensa do dia. “Ah, obrigada, está muito frio e gosto de passar um batonzinho para proteger”, explicou.
Ela riu e sabia que no fundo mesmo, o batom era um código de conduta. Uma postura, uma filosofia de vida. E saiu feliz para seu destino por salvar mais lábios incolores.
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quarta-feira, 30 de maio de 2018
TUTORIAL NÃO CUSTA
NÃO CUSTA, CURTIR A PÁGINA QUE UM AMIGO INDICOU
NÃO CUSTA, PORQUE VOCÊ PODE ESTAR AJUDANDO O TRABALHO DE ALGUÉM,
SIMPLES ASSIM
NÃO CUSTA, MESMO QUE DEMORE, RESPONDER UMA MENSAGEM
NEM QUE SEJA NUM SORRISO BOBO DE UM ÍCONE AUTOMATIZADO
NÃO CUSTA, SILENCIAR AS NOTIFICAÇÕES EM PERÍODO SABÁTICO
E SE NÃO ENTENDEREM, NÃO CUSTA EXPLICAR
MAS SÓ EXPLIQUE, NÃO JUSTIFIQUE
NÃO CUSTA, PEDIR PERDÃO SE O CORAÇÃO PEDE
SE PERDOAREM OU NÃO, O CUSTO NÃO É SEU
NÃO CUSTA, DIRIMIR A DÚVIDA
NEGOCIAR A DÍVIDA
E MANTER IMPÁVIDA A ALMA
A VIDA, MESMO QUE AINDA POSSA ESTAR INDELEVELMENTE FERIDA.
Listen to "Tutorial Não Custa" on Spreaker.
NÃO CUSTA, PORQUE VOCÊ PODE ESTAR AJUDANDO O TRABALHO DE ALGUÉM,
SIMPLES ASSIM
NÃO CUSTA, MESMO QUE DEMORE, RESPONDER UMA MENSAGEM
NEM QUE SEJA NUM SORRISO BOBO DE UM ÍCONE AUTOMATIZADO
NÃO CUSTA, SILENCIAR AS NOTIFICAÇÕES EM PERÍODO SABÁTICO
E SE NÃO ENTENDEREM, NÃO CUSTA EXPLICAR
MAS SÓ EXPLIQUE, NÃO JUSTIFIQUE
NÃO CUSTA, PEDIR PERDÃO SE O CORAÇÃO PEDE
SE PERDOAREM OU NÃO, O CUSTO NÃO É SEU
NÃO CUSTA, DIRIMIR A DÚVIDA
NEGOCIAR A DÍVIDA
E MANTER IMPÁVIDA A ALMA
A VIDA, MESMO QUE AINDA POSSA ESTAR INDELEVELMENTE FERIDA.
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quinta-feira, 30 de novembro de 2017
A SUA CARTA
Ontem escrevi de próprio punho, minha carta de amor a você. Daquelas cartas honestas, alma lavada, sem dramas ou adjetivos que tentam burlar a simplicidade do sentimento de amar.
Eu assistia a um filme que considerava água com açúcar pela sinopse, mas se revelou uma crônica de como nos enganamos ao projetar nossas incessantes expectativas no outro. E aí, num belo dia, acordamos com alguém que não era a pessoa idealizada. E pior, delegamos a culpa ao par por não ter se tornado aquilo que criamos num mundo só nosso, baseado em sei lá o quê.
Bem meu amor, e digo isso na carta, que vou te chamar de amor, mesmo sempre ter achado isso deveras brega e avesso a minha natureza um tanto rude, que nesta noite da carta eu enchi meu ser de doces. Não estou com desequilíbrio hormonal, mas talvez de forma inconsciente, aplaquei minha acidez e certa agressividade que quiseram tomar conta do meu dia.
E, de repente, me vi com uma caneta e papel na mão, além da ideia persuasiva de lhe escrever essa carta, que vou lhe entregar no momento certo, do jeito certo e acompanhar sua leitura silenciosa e esboçar de um riso tolo, porém emocionado.
Até pouco tempo mantinha a certeza que esse sentimento teria que acontecer de forma avassaladora, derrubando exércitos de ansiedade, invadindo aldeias de insanidade de pensamentos e conquistando territórios arfados. Nada contra toda essa turbulência típica dos amantes, havia projetado amores verdadeiros como tanques de guerra. E quando alguém chama pessoa ou meta de guerreiro, significa que há luta. E se há luta, não existe paz!
Ah, você me dá paz e não é algo tedioso. Há um fino equilíbrio no que poderia se dizer olhando de fora “nossas diferenças”, que se traduzem em nos transbordarmos. Você ri, mas sei que não é deboche ou descrença, mas uma sutil admiração desse meu jeito empolgada.
E você cuida sem impor autoridade. Lá dentro meu coração o compasso é “já ganhou, já ganhou”. Eu tenho 15, 20, 30, 40, 100 anos quando estamos juntos. E além da carta vai ter um post, mas você merece, sim merece meu amor!
OUÇA AQUI O PODCAST
Listen to "A SUA CARTA" on Spreaker.
Eu assistia a um filme que considerava água com açúcar pela sinopse, mas se revelou uma crônica de como nos enganamos ao projetar nossas incessantes expectativas no outro. E aí, num belo dia, acordamos com alguém que não era a pessoa idealizada. E pior, delegamos a culpa ao par por não ter se tornado aquilo que criamos num mundo só nosso, baseado em sei lá o quê.
Bem meu amor, e digo isso na carta, que vou te chamar de amor, mesmo sempre ter achado isso deveras brega e avesso a minha natureza um tanto rude, que nesta noite da carta eu enchi meu ser de doces. Não estou com desequilíbrio hormonal, mas talvez de forma inconsciente, aplaquei minha acidez e certa agressividade que quiseram tomar conta do meu dia.
E, de repente, me vi com uma caneta e papel na mão, além da ideia persuasiva de lhe escrever essa carta, que vou lhe entregar no momento certo, do jeito certo e acompanhar sua leitura silenciosa e esboçar de um riso tolo, porém emocionado.
Até pouco tempo mantinha a certeza que esse sentimento teria que acontecer de forma avassaladora, derrubando exércitos de ansiedade, invadindo aldeias de insanidade de pensamentos e conquistando territórios arfados. Nada contra toda essa turbulência típica dos amantes, havia projetado amores verdadeiros como tanques de guerra. E quando alguém chama pessoa ou meta de guerreiro, significa que há luta. E se há luta, não existe paz!
Ah, você me dá paz e não é algo tedioso. Há um fino equilíbrio no que poderia se dizer olhando de fora “nossas diferenças”, que se traduzem em nos transbordarmos. Você ri, mas sei que não é deboche ou descrença, mas uma sutil admiração desse meu jeito empolgada.
E você cuida sem impor autoridade. Lá dentro meu coração o compasso é “já ganhou, já ganhou”. Eu tenho 15, 20, 30, 40, 100 anos quando estamos juntos. E além da carta vai ter um post, mas você merece, sim merece meu amor!
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terça-feira, 31 de outubro de 2017
QUANDO FALARES DE AMOR
E quando falares de amor,
por favor,
não me venhas com o pio da cotovia e tampouco o leve balançar dos galhos de amoreira no zérifo matinal.
De ti dispenso os protocolos em que comparas o castanho dos meus olhos a qualquer semente amadeirada, assim como falas do meu riso torto a um certo temor juvenil.
Não te demores!
São noites de horrores sem a tua presença.
E se pareço uma ópera com árias distintas,
deves bem saber que passo do allegro ao adágio,
como o sutil toque dos segundos de um relógio.
As palavras me escapam nas divagações incertas sobre nós.
Mas ao pensar plural, se corre o risco de intromissão naquilo que o outro realmente pensa.
Ah, tu me confundes!
Contudo, nesse abismo em queda livre, me basta contemplar a paisagem,
pois dizem os sonhadores, que do outro lado do medo
há uma vida de maravilhas.
Listen to "Quando Falares De Amor" on Spreaker.
por favor,
não me venhas com o pio da cotovia e tampouco o leve balançar dos galhos de amoreira no zérifo matinal.
De ti dispenso os protocolos em que comparas o castanho dos meus olhos a qualquer semente amadeirada, assim como falas do meu riso torto a um certo temor juvenil.
Não te demores!
São noites de horrores sem a tua presença.
E se pareço uma ópera com árias distintas,
deves bem saber que passo do allegro ao adágio,
como o sutil toque dos segundos de um relógio.
As palavras me escapam nas divagações incertas sobre nós.
Mas ao pensar plural, se corre o risco de intromissão naquilo que o outro realmente pensa.
Ah, tu me confundes!
Contudo, nesse abismo em queda livre, me basta contemplar a paisagem,
pois dizem os sonhadores, que do outro lado do medo
há uma vida de maravilhas.
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