segunda-feira, 27 de fevereiro de 2017

VENDE-SE TERRENO NA FRIENDZONE

Mimimi e Naná caminhavam por uma rua do bairro que um dia foi nobre, quando depararam com um imenso outdoor. VENHA PARA A FRIENDZONE! Basta um coração de entrada e você já pode adquirir o seu lote. A seguir vinham os telefones de contato e redes sociais.
- Naná, será que a Friendzone fica perto do centro nervoso?
- Nem imagino, mas me parece um lugar atraente, charmoso, promissor.
As duas ficaram a imaginar como seria viver nesse lugar misterioso, com ar sedutor e talvez, um empreendimento futuro mais viável em momentos de crise, especialmente as de solidão.
Ambas seguiram em frente e entraram no café da esquina. Escolheram a mesa redonda, a única nesse formato do estabelecimento, que tinha lá seu charme e a torta de maçã mais gostosa da cidade.
Feito o pedido, Naná e Mimimi continuaram a especular sobre o anúncio na Friendzone, até que Ad Aeternum, solteira convicta entrou no local.
- Oi Ad! – cumprimentou Naná.
-Oi! – respondeu Ad, que logo foi para a banqueta do balcão pedir seu café puro sem açúcar.
- Mimimi, o que você acha de convidarmos Ad para sentar conosco? Ela tem cara de quem sabe algo sobre Friendzone.
Em acordo, chamaram Ad para a mesa. A moça de pelo menos mais de três décadas, super na moda, informada e charmosa aceitou o convite.
Nem bem ela se acomodou, Naná perguntou se ela conhecia o novo empreendimento da cidade.
-Friendzone? Ah, conheço sim. Aliás, é o tipo de lugar que geralmente me situo.
As mulheres ficaram eufóricas e pediram detalhes. Então Ad começou a saga.
- É um lugar atraente no começo, parece perfeito para ser feliz. Mas a verdade é que os dias passam e você revoga a esperança para o dia seguinte. Isso porque existe um jardim maravilhoso, tudo que você planta nasce sabe, mas não dá frutos ou flores. As árvores crescem até um limite, as flores também, mas elas não passam de certa fase. Não há ciência que explique. Também acontece um fenômeno estranho, quando você vai ao playground, tudo é proibido, só alguns tem acesso. Você fica assistindo os outros se divertirem, embora prometam que na próxima você será o convidado especial. O sistema de segurança é ultra eficiente! Tecnologia de ponta. Ninguém, absolutamente ninguém entra na sua privacidade, só a pessoa que tem um código de acesso especial, porque ela monitora toda sua rotina, para se certificar de que você não sairá do perímetro de controle. Ah, a gente se sente tão cuidada!
Encantadas e um pouco confusas, Naná e Mimimi perguntaram se ela comprou um lote lá. Se o preço era caro ou barato. Se elas poderiam ir até lá para dar uma olhada.
- Olhem queridas, disse Ad, eu morei por algum tempo na Friendzone. Embora pareça promissor, é um lugar triste, ilusório, só há vantagem para o corretor. Lá é um lugar para quem quer viver sozinho, mas com a ilusão que num passe de mágica tudo isso vá mudar. Na realidade, as flores e os frutos nunca vão nascer, ninguém vai te visitar, é muito longe e sobre o custo: o mais alto que qualquer um pode pagar!
E Ad Aeternum pediu licença, pagou seu café e saiu não só do café como da Friendzone, fazendo jus ao seu nome.

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quinta-feira, 23 de fevereiro de 2017

PSIU! VOCÊ ESTÁ VIVO

Com licença! Ei moça, ei moço, você pode olhar para mim enquanto eu falo?
Eles olharam por cima da pequena tela e como não falei por três segundos, continuaram suas vidas de pupilas dilatadas e dedos frenéticos nessa extensão do corpo que cabe na palma da mão.
Oras, não vou ser hipócrita, também gosto desse mundo conectado e hiperativo, sustentado por plataformas e aplicativos, que me levam do Ahú de Baixo a Paris literalmente num piscar de olhos.
Eu queria dizer para eles que no nosso bairro o carro do sonho acabou de passar, que os cães e gatos deram uma trégua nessa guerrinha criada por nós, homens, que a amoreira da esquina foi cortada, que o quilo da banana estava em oferta no mercadinho, mas a moça, o moço estão em outros links, quando poderiam estar nuns drinks, convenhamos.
E então me debato no limite entre ser nascida no século XX e viver (ainda) a ascendência da curva no século XXI e me beliscar mentalmente o tempo todo para saber que estou viva. Ah! as instituições sabem que estou viva, eu existo para a Receita. Sou um número longo. Existo em URLs, em busca do Google, ah, eu existo, uma crise a menos.
Eu, você e a Candinha da esquina somos notificações. Visualizações, somos likes e emojis. Olha só, e eu achando que não era nada!!!!
Mas eu entro no carro e começo a cantar sozinha e recitar meus mantras. Porque eu preciso sentir que faço isso sem condutores físicos, porque sou de carne, osso, sangue e colesterol baixo. Não quero enfrentar nem debater que as peles não se tocam com freqüência, pois basta ser um pim notificável, que você se faz presente. Fique contente com isso.
Eu só queria dizer “psiu! você está vivo”. E quem sabe tomar um cafezinho.

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