Não era físico
e vibrava como uma onda
tinha freqüência, mas
faltava ressonância
Metafísico
Orgânico
Nos olhos do gato
se conectavam
Mas tinha o medo
Um segredo
Processo de limpeza emocional
Nunca viu nada igual
Eu digo meu bem,
Não importa o resultado
A vida é amor
É machucado
Só não pode deixar
O sentimento estagnado
Então tudo que é metafísico
Se torna ressonante
E vibra na alta frequência
Lide com a tal da impermanência
Blog literário com podcasts produzido pela jornalista, escritora, poeta e podcaster Ronise Vilela
sábado, 5 de agosto de 2017
quinta-feira, 4 de maio de 2017
FÓRMULA PARA TE ESQUECER
Dentro do pote estavam guardadas as memórias. Eram piadas bobas compartilhadas com um bom vinho ou até uma cerveja gourmet, olhos brilhantes, mensagens de texto em aplicativos diversos, brigas sem motivo aparente, estavam todas misturadas.
Num primeiro momento despejei tudo e tentei separar. Mas qual o sentido de separar tudo aquilo? Seria uma bela desculpa para pegar um restinho e guardar num novo pote. E se fizesse isso, a fórmula não traria o efeito desejado.
Depois de preparar o caldeirão e colocá-lo sobre fogo, precisava de uma música para o ritual. Tentei escolher algo que não remetesse a você e só me restou A CAVALGADA DAS VALQUÍRIAS DE WAGNER. Minto - isso era você puro!
Nas cápsulas estavam todos meus sentimentos represados: paixão, ilusão, desejo, sonhos, expectativas. Todas foram para a panela, depois joguei as indiretas, as entrelinhas, as insinuações. Salpiquei com novos olhares cúmplices.
Na horta, colhi os temperos das promessas, dos encontros, dos telefonemas e de uma vida a dois unilateral. Tudo ia se misturando e formando uma calda espessa, uma fumaça densa, enquanto a música chegava ao clímax.
A CAVALGADA DAS VALQUÍRIAS no repeat umas cinco vezes.
Para finalizar, teria que arrancar meu coração.
Tomei coragem.
Algumas lágrimas escorreram.
Respirei fundo.
Decidi não me anestesiar.
Finalmente o golpe e a surpresa: ele não estava lá!
Procurei por todos os lugares, desarrumei todas as gavetas e aí tive uma visão: você havia tomado ele prá si.
Mas determinada em seguir com a fórmula, substitui o ingrediente.
Agora é só esperar para ver se funciona.
Listen to "Fórmula para Te Esquecer" on Spreaker.
Num primeiro momento despejei tudo e tentei separar. Mas qual o sentido de separar tudo aquilo? Seria uma bela desculpa para pegar um restinho e guardar num novo pote. E se fizesse isso, a fórmula não traria o efeito desejado.
Depois de preparar o caldeirão e colocá-lo sobre fogo, precisava de uma música para o ritual. Tentei escolher algo que não remetesse a você e só me restou A CAVALGADA DAS VALQUÍRIAS DE WAGNER. Minto - isso era você puro!
Nas cápsulas estavam todos meus sentimentos represados: paixão, ilusão, desejo, sonhos, expectativas. Todas foram para a panela, depois joguei as indiretas, as entrelinhas, as insinuações. Salpiquei com novos olhares cúmplices.
Na horta, colhi os temperos das promessas, dos encontros, dos telefonemas e de uma vida a dois unilateral. Tudo ia se misturando e formando uma calda espessa, uma fumaça densa, enquanto a música chegava ao clímax.
A CAVALGADA DAS VALQUÍRIAS no repeat umas cinco vezes.
Para finalizar, teria que arrancar meu coração.
Tomei coragem.
Algumas lágrimas escorreram.
Respirei fundo.
Decidi não me anestesiar.
Finalmente o golpe e a surpresa: ele não estava lá!
Procurei por todos os lugares, desarrumei todas as gavetas e aí tive uma visão: você havia tomado ele prá si.
Mas determinada em seguir com a fórmula, substitui o ingrediente.
Agora é só esperar para ver se funciona.
Listen to "Fórmula para Te Esquecer" on Spreaker.
domingo, 26 de março de 2017
AQUELA CONVERSA INBOX
(barulho de notificação)
Ela olha, mas não liga.
Duas horas se passaram e então ela decide navegar. Está lá a notificação. Abre o perfil e não reconhece quem é a pessoa.
Exatamente no momento onde vai investigar a identidade, o bate-papo está ativado.
- Oi. Lembra de mim?
Não diz nada e tenta desesperadamente saber quem é.
- Oi, sou amigo, do fulano, primo do sicrano, daquele dia, daquela hora, daquele local e razão.
- Oi. Ela responde.
A memória não ajuda, nem com todas as dicas. Dezenas de amigos comuns.
As bolinhas de reticências que indicam que do outro lado da tela alguém está digitando não param. Ela fixa nas bolinhas saltitantes. Ora elas pausam, depois voltam a dançar e nada aparece na caixa de diálogo.
- Lembro sim. Tudo bem com você?
A memória vai refrescando, saindo de uma névoa de mais de uma década.
A seguir vem um textão. A pessoa conta a vida de um tempo longo sem comunicação ou notícia. Um pouco atônita com a enxurrada de informações, começa a se soltar e contar algo de si. Em meia hora já estavam íntimos ou quase isso.
Quando notaram, duas horas de conversa se passara. Pausa dada por ela. Tinha compromisso.
Lá à noite resolveu retomar o papo. Continuaram madrugada adentro. E assim no outro dia, em qualquer horário. Links de músicas, de fotos, de risos, piadas. Já eram cúmplices. Ou não. Conheciam as rotinas um do outro, o nome dos vizinhos e familiares. Do gosto musical e de quem pingava azeite de oliva sobre o arroz. Fizeram um trato maluco e se chamavam por nomes inventados.
Combinaram de se encontrar algumas vezes, mas sempre tinha um impedimento. Qual era mesmo? O medo da quebra da mágica da tela, às vezes um anjo protetor, noutras um demônio da exposição.
As semanas passaram num piscar de olhos. Parecia acontecer algo, uma dependência. Tudo, absolutamente tudo era compartilhado com pedido de opinião alheia. Teve até DR! E aí chegou o fatídico dia. Nenhuma notificação, nenhum rastro. Sem sinal.
Soube que numa das caixas de diálogo toda a conversa foi arquivada e na outra, deletada.

Ela olha, mas não liga.
Duas horas se passaram e então ela decide navegar. Está lá a notificação. Abre o perfil e não reconhece quem é a pessoa.
Exatamente no momento onde vai investigar a identidade, o bate-papo está ativado.
- Oi. Lembra de mim?
Não diz nada e tenta desesperadamente saber quem é.
- Oi, sou amigo, do fulano, primo do sicrano, daquele dia, daquela hora, daquele local e razão.
- Oi. Ela responde.
A memória não ajuda, nem com todas as dicas. Dezenas de amigos comuns.
As bolinhas de reticências que indicam que do outro lado da tela alguém está digitando não param. Ela fixa nas bolinhas saltitantes. Ora elas pausam, depois voltam a dançar e nada aparece na caixa de diálogo.
- Lembro sim. Tudo bem com você?
A memória vai refrescando, saindo de uma névoa de mais de uma década.
A seguir vem um textão. A pessoa conta a vida de um tempo longo sem comunicação ou notícia. Um pouco atônita com a enxurrada de informações, começa a se soltar e contar algo de si. Em meia hora já estavam íntimos ou quase isso.
Quando notaram, duas horas de conversa se passara. Pausa dada por ela. Tinha compromisso.
Lá à noite resolveu retomar o papo. Continuaram madrugada adentro. E assim no outro dia, em qualquer horário. Links de músicas, de fotos, de risos, piadas. Já eram cúmplices. Ou não. Conheciam as rotinas um do outro, o nome dos vizinhos e familiares. Do gosto musical e de quem pingava azeite de oliva sobre o arroz. Fizeram um trato maluco e se chamavam por nomes inventados.
Combinaram de se encontrar algumas vezes, mas sempre tinha um impedimento. Qual era mesmo? O medo da quebra da mágica da tela, às vezes um anjo protetor, noutras um demônio da exposição.
As semanas passaram num piscar de olhos. Parecia acontecer algo, uma dependência. Tudo, absolutamente tudo era compartilhado com pedido de opinião alheia. Teve até DR! E aí chegou o fatídico dia. Nenhuma notificação, nenhum rastro. Sem sinal.
Soube que numa das caixas de diálogo toda a conversa foi arquivada e na outra, deletada.

quinta-feira, 16 de março de 2017
A GAROTA DO CANTO DA FESTA
N.A. Esse post deve ser lido ao som de The Lovercats do The Cure
Ela detestava festa de 15 anos, mas teve que ir a algumas. Principalmente pela exigência das roupas horrorosas da década de 80. Era pré-dark e usava botinas estilo coturno. Também tinha aversão ao pop e geralmente se divertia quando colocavam The Cure. Nessa hora os adolescentes faziam caras e bocas para o som estranho. Ela curtia quieta no canto.
Quando um rapaz se aproximava para um papo daqueles, fazia cara de Robert Smith. Teve o cabelo com corte de um lado semi-raspado e do outro meio Chanel. Usava minissaia camuflada e o eterno olhar blasé. Os meninos não gostavam muito.
As amigas eram meio Madonna Procura-se Susan Desesperadamente e usavam maquiagem nos olhos de cor verde. Era uódoborogodó! E só falavam de ficar e dançar com os meninos. Ela se isolava do salão e ficava só, geralmente naquilo que ela chamava de canto de invisibilidade. Ela era a garota do canto da festa.
Enquanto as mães reclamavam que suas filhas no viço da adolescência para juventude estavam namorando e esquecendo os estudos, a garota do canto da festa nutria amores platônicos, pelo menos isso a inspirava em suas poesias e choros sem sentido, derivados da mudança hormonal.
As quase mulheres de sua idade falavam de boatinhas dominicais. Ela, de sua experiência de tomar sozinha 10 garrafinhas de vodca que o pai ganhara de um embaixador. Apenas uma amiga entendia seus papos e lia seus escritos chamados EMPTY GARDEN, uma alusão a música do Elton John. Eram sobre amores oníricos em lugar não existente nos mapas, num caderno de capa com gravuras impressionistas.
Sim, era esquisita para os padrões. Ela adorava isso. Era seu refúgio e sua mãe dizia que ela vivia numa bolha. Gostava de se vestir como o Arnaldo Antunes dos Titãs e isso causava maior estranheza ao grupo juvenil.
Entre tantas festas, a garota do canto foi em uma delas num sábado à noite. A casa era enorme e isso desafiava qual seria o canto escolhido. Entre as “loiras geladas” do RPM, ela foi logo para o canto perto de uma escada antiga de madeira. Fez a cara de tédio. Em seguida começou a tocar Lovercats do Cure. Isso a animou e dançava sozinha no canto em slow motion e olhos fechados.
Ao abrir os olhos, seu grande amor platônico estava à sua frente e se ofereceu para dividir o canto. Ela gelou. Robert Smith no 3 em 1. Lovercats no fim. Ele a beijou e foi embora. Desde então ela saiu dos cantos da festa e hoje é a garota da pista, mas aí é outra história.
Listen to "A Garota do Canto Da Festa" on Spreaker.
sexta-feira, 10 de março de 2017
A CARTA QUE NUNCA FOI ENTREGUE
Há uma carta que foi escrita com tudo aquilo que um coração apaixonado poderia sentir. Uma carta que teve muita dor e sofrimento, porque se sabia ou se supunha que o destinatário levaria um tremendo susto e ficaria sem nada entender.
Uma carta de três páginas, em folhas de papel de um caderno universitário. O volume teve que ser cuidadosamente ajeitado no envelope branco. Na verdade teve que ser trocado por um super envelope, tinha uma fita K7 que acompanhava em áudio o conteúdo.
Isso porque a remetente tinha uma veia um tanto dramática e queria que, quando fosse lida, o destinatário entendesse o tom em que aquelas palavras foram escritas.
Aquelas três páginas com dezenas de parágrafos, foram escritas sobre a cama da pessoa apaixonada. Cada frase reveladora de seu amor era banhada por alguma lágrima mais rápida que seus dedos, que tentavam bloquear o líquido a cair no papel.
Foram construções de verbos com palpitações, crises de riso e choro, que só um ser histérico de amor pode fazer. O primeiro passo tinha acontecido. E isso foi uma vitória.
Agora era tomar coragem e entregar a carta para a pessoa amada. Essa que estava sempre ao seu alcance, mas devidamente limitada pela amizade. Aliás, grande amizade, o grande precipício de toda a relação.
Dentro da bolsa, o grande envelope. A autora não havia pensando numa estratégia. Foi surpreendida por um convite do ser amado; esse, afoito para lhe contar uma novidade. Como era de costume, havia carinho entre ambos, se gostavam sim. Eram amigos e cúmplices das conversas mais improváveis e saborosas do mundo.
Muito apressado, o amigo entrou num bar com ela, puxou a cadeira para que sentasse antes dele e logo pediu uma bebida. Estava eufórico, coisa não muito comum. Disse que tinha algo muito importante para lhe dizer.
Aqueles segundos foram os mais tensos e sonhadores daquela alma apaixonada. O pensamento dela entrou no túnel invariável da ilusão. Compôs até uma cena. “Meu Deus, ele vai dizer que me ama! Isso vai facilitar tudo. Nosso destino nos une...” e uma série de blá, blá, blás mentais.
Entre um gole e outro, ele pegou as mãos dela e se olharam fixamente. O coração dela disparou. E então ele disse que estava junto finalmente com a mulher que amava. Uma terceira pessoa.
O céu escureceu, os pássaros se calaram, a visão ficou turva.
Ela sorriu e comemorou a alegria dele, como toda boa amiga. Brindaram. Sorriram. E mais uma carta de amor se perdeu no tempo, no espaço, sem nunca sequer ser entregue.
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